Partir! Partir, sempre. E regressar...
No princípio foi o sonho e a aventura em caravelas transbordando
Espalhámos a fé, levámos a “civilização ocidental” (sempre a
civilização ocidental a moldar-nos, a tolher-nos os passos e os pensamentos),
estendemos o poderio militar, dominámos, fomos conquistadores (de quê?),
criámos mitos e heróis, mas olhando de soslaio as especiarias, o ouro e a
glória...
Tudo tivemos e desbaratámos. Como agora. O cravinho e a pimenta.
A malagueta e o açúcar. O café e o tabaco. Até o ouro do Brasil (quantos
negreiros, quantos escravos mortos, quanto sangue derramado?) desperdiçámos.
Tantos sonhos de riqueza em pouco tempo esfumados...
E novos sonhos se desfizeram em viagens consumidos.
Miragem de uma pátria imperial, estendida pelas cinco partidas
do mundo, mas configurada sempre ao rincão original, europeu.
Partimos. Estendemos os olhos e a cobiça, fomos senhores de um
vasto império.
E voltámos, sempre, mais pobres do que nunca, esquecidos de nós
próprios...
Atravessámos mares e oceanos, desbravámos caminhos e florestas,
fizemos a travessia do deserto e do tempo. Chegámos à década de 60 do século
passado. Famintos, oprimidos, estranhos na própria “casa”, lançámo-nos noutra
aventura: a conquista do pão e da dignidade.
Demandámos outras paragens, partimos novamente. Atravessámos
Alpes e Pirinéus, fintámos a fome, suportámos os rigores do frio e da neve,
enganámos os carabineiros.
Uns. Outros, não... Alguns jazem, sabe-se lá em que vereda ou
ravina, perpassados pelas balas das armas dos homens sem coração ou pelo
espírito da traição...
Partir e voltar. Sempre. O retorno ao rincão natal. A vida
ligeiramente melhor. A dignidade reconquistada (será?).
Português. Povo que sofre, que luta, parte e retorna.
Já Eça, há uma século atrás entendia a sua alma.
Mário Mendes – Fev.1986